Combate à insegurança alimentar na América Latina passa por reforço da proteção social e agrícola

A América Latina vive um paradoxo: uma das regiões mais férteis do planeta, líder mundial na produção de alimentos, mas que ainda convive com altos índices de insegurança alimentar. O combate a esse flagelo, apontam especialistas, passa inevitavelmente pelo reforço coordenado da proteção social e de políticas agrícolas robustas.

O cenário da fome na América Latina

Após décadas de avanços, a fome voltou a crescer na região. O processo, agravado pela pandemia de Covid-19, pelas crises econômicas e pela alta global dos preços dos alimentos, jogou dezenas de milhões de latino-americanos em situação de pobreza extrema. A pobreza rural, a desigualdade histórica e a falta de acesso a terra e a mercados justos são os principais motores desse drama que atinge especialmente crianças, mulheres e povos indígenas.

O papel da proteção social

Programas de transferência de renda e de alimentação escolar, como o Bolsa Família no Brasil e a Asignación Universal por Hijo na Argentina, têm se mostrado eficazes na redução imediata da pobreza e da fome. Contudo, o simples benefício não basta. É essencial que esses programas estejam articulados com políticas de inclusão produtiva, acesso à saúde, saneamento básico e educação nutricional. A construção de um piso de proteção social permanente, que não desapareça em tempos de crise, é a base para a segurança alimentar duradoura.

Reforço da proteção agrícola

A segunda frente indispensável é a transformação dos sistemas agrícolas. A América Latina não precisa apenas de mais comida, mas de um sistema que garanta o acesso a alimentos saudáveis, diversificados e culturalmente apropriados. Isso significa investir fortemente na agricultura familiar e camponesa, responsável por grande parte dos alimentos que chegam à mesa dos latino-americanos. São necessárias políticas públicas robustas que ofereçam crédito rural, assistência técnica, acesso à terra e à água, e incentivos para práticas agroecológicas e sistemas alimentares sustentáveis. A resiliência às mudanças climáticas, que já afetam severamente as safras, também demanda uma revisão profunda dos modelos de produção.

Um caminho integrado

A superação da insegurança alimentar não se dará por ações isoladas. Requer um pacto entre governos, organizações regionais, sociedade civil e o setor privado. As soluções precisam unir o alívio imediato da fome com investimentos de longo prazo na resiliência das comunidades rurais e urbanas. O fortalecimento de mercados locais e regionais, a integração de políticas fiscais e sociais e o combate ao desperdício de alimentos são etapas fundamentais para garantir que a abundância da América Latina chegue a todos os seus habitantes.

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