CUIDAR DA VISÃO E TAMBÉM CUIDAR DA SOCIEDADE QUE QUEREMOS TER

Olho

O Brasil é líder em cirurgias de catarata na América Latina e fez mais de 580 mil procedimentos no ano passado, aponta painel de monitoramento das cirurgias de catarata do Ministério da Saúde. A boa notícia, contudo, não pode nos distanciar de uma triste realidade: o acesso à saúde ocular no país ainda é profundamente desigual e insuficiente para a demanda da população.

Um dos grandes desafios é convencer a população da importância de ir ao oftalmologista pelo menos uma vez ao ano, principalmente pessoas acima de 60 anos, que estão mais propensas a desenvolver doenças como catarata e degeneração macular. Outro, igualmente urgente, é garantir que quem precisa de tratamento ou cirurgia consiga atendimento em tempo hábil e com qualidade.

O Brasil apresenta cerca de 22 milhões de pessoas com alguma deficiência visual, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Desse total, 1,5 milhão são cegos ou têm baixa visão severa, e 70% dos casos seriam evitáveis ou tratáveis se houvesse acompanhamento médico adequado e rotineiro.

No sistema público, o SUS realizou mais de 580 mil cirurgias de catarata em 2022, segundo dados do SIH-REDUZ/SIH-REDUZ/SUS. O número impressiona, mas representa apenas parte da demanda real. Estima-se que a fila de espera por uma cirurgia de catarata no país ultrapasse 200 mil pacientes, com algumas regiões onde a espera pode chegar a mais de dois anos.

Outubro Verde

A fila invisível da oftalmologia no SUS

O grande gargalo da oftalmologia no Brasil está no atendimento de média e alta complexidade. Embora a Atenção Primária seja porta de entrada, muitas unidades não dispõem de oftalmoscópio direto ou de profissionais capacitados para realizar exames básicos de acuidade visual e fundo de olho. Isso faz com que o paciente demore a ser diagnosticado e, quando o é, já está em estágio avançado da doença.

A situação é ainda mais grave nas regiões Norte e Nordeste, onde a oferta de serviços oftalmológicos é muito inferior à do Sudeste. De acordo com o levantamento das entidades, o percentual de brasileiros que nunca foi ao oftalmologista pode chegar a 35% em algumas localidades, número que cai para cerca de 15% nas capitais do Sul e do Sudeste.

Médica

Outubro Verde: quando a saúde ocular ganha voz

Foi pensando nesse cenário que o Conselho Brasileiro de Doação de Órgãos (CBDO), idealizadora da campanha #OutubroVerde, lançou a campanha #OutubroVerde com o mote "Doar é enxergar longe". A proposta é conscientizar a população sobre a importância da doação de córneas e tecidos oculares, que podem restaurar a visão de milhares de pessoas que aguardam na fila do transplante.

O Brasil tem um dos maiores programas públicos de transplantes de córnea do mundo, realizado integralmente pelo SUS. Foram mais de 14 mil transplantes realizados em 2022, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Apesar disso, o descompasso entre o número de doações e a demanda ainda é grande. Dados da ABTO mostram que, para cada paciente transplantado, ao menos um permanece na fila de espera.

Catarata

Tecnologia e humanização: o caminho possível

Ainda que os desafios sejam imensos, a tecnologia tem sido uma aliada importante na ampliação do acesso à saúde ocular. Equipamentos modernos de diagnóstico, como o OCT (Tomografia de Coerência Óptica), permitem identificar doenças como glaucoma e degeneração macular de forma precoce, aumentando as chances de tratamento bem-sucedido.

Mas não basta ter equipamentos de ponta se o cuidado com o paciente não for humanizado. A jornada do paciente oftalmológico no SUS precisa ser repensada, desde o acolhimento na atenção básica até o agendamento de cirurgias e consultas especializadas. A informação clara sobre prevenção e tratamento é outra lacuna que precisa ser preenchida.

Paciente

Visão, cidadania e o Brasil que queremos ser

Cuidar da visão é também cuidar da sociedade que queremos ter. Quando enxergamos bem, temos mais autonomia, mais segurança para nos deslocar, mais condições de estudar e trabalhar. A saúde ocular é, portanto, um pilar da cidadania. Investir em oftalmologia no SUS, apoiar campanhas de doação de córneas e ampliar a prevenção são passos fundamentais para um país mais justo e inclusivo.