Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) acende o alerta para a persistente desigualdade de gênero no campo. De acordo com o estudo The Status of Women in Agrifood Systems 2023, as mulheres que trabalham na agricultura recebem, em média, 20% menos do que os homens, uma diferença que se mantém mesmo quando ocupam funções e exercem atividades semelhantes.
A pesquisa analisa dados de mais de 100 países e aponta que, embora as mulheres representem cerca de 43% da força de trabalho agrícola global, elas estão sub-representadas em cargos de maior remuneração e concentradas em empregos informais, com pouca ou nenhuma proteção social. A falta de acesso à propriedade da terra, ao crédito rural, à assistência técnica e aos mercados formais são apontados como os principais fatores estruturais que perpetuam a disparidade salarial.
Desigualdade global no campo
A segregação ocupacional é uma das causas centrais do problema. As mulheres tendem a se concentrar em culturas de subsistência e em atividades de pós-colheita, que são menos valorizadas economicamente. Além disso, o trabalho de cuidado não remunerado, que recai desproporcionalmente sobre elas, reduz o tempo disponível para atividades geradoras de renda e para a participação em capacitações técnicas.
A FAO destaca que reduzir a desigualdade de gênero na agricultura não é apenas uma questão de justiça social, mas também de eficiência econômica. Estima-se que, se as mulheres tivessem o mesmo acesso a recursos produtivos que os homens, a produção agrícola total poderia aumentar em até 4%, contribuindo significativamente para a redução da fome e da pobreza no mundo.
A realidade brasileira
No Brasil, o cenário reflete as tendências globais. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e estudos do meio acadêmico mostram que a diferença salarial entre homens e mulheres no campo pode chegar a 30% em algumas regiões, especialmente no Nordeste, onde se concentra a maior parte dos agricultores familiares.
As trabalhadoras rurais brasileiras enfrentam uma dupla jornada, conciliando o trabalho produtivo na lavoura com as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos. A informalidade é outro grande desafio: muitas mulheres atuam como ajudantes sem remuneração direta, o que as exclui dos benefícios previdenciários e trabalhistas.
Caminhos para a igualdade
Para reverter esse quadro, a FAO recomenda a implementação de políticas públicas integradas. Entre as medidas prioritárias estão o fortalecimento dos direitos das mulheres à terra, o acesso igualitário a programas de crédito rural (como o Pronaf Mulher, no Brasil), a promoção da formalização do trabalho agrícola feminino e o investimento em educação e capacitação técnica.
O relatório conclui que a igualdade de gênero no campo é um requisito fundamental para o desenvolvimento sustentável e para a construção de sistemas alimentares mais justos, resilientes e capazes de alimentar uma população mundial crescente.