Não vale nem comentar

Em um cenário político marcado por declarações cada vez mais vazias e propostas sem fundamento, saber quando silenciar é um exercício de responsabilidade jornalística.

Vivemos a era do ruído. A cada minuto, uma nova declaração polêmica, uma proposta descabida ou um factóide toma conta das redes sociais e dos noticiários. A imprensa, muitas vezes, sente-se obrigada a repercutir cada manifestação, sob pena de parecer omissa. Mas será que tudo realmente merece comentário?

A experiência mostra que não. Quando uma fala é tão desprovida de racionalidade que mal se sustenta, o ato de comentá-la pode, paradoxalmente, dar a ela uma relevância que não possui. O jornalismo não é um eco automatizado de tudo o que é dito; sua função é filtrar, contextualizar e hierarquizar. E isso inclui saber o que ignorar.

No Brasil, não é difícil encontrar exemplos de declarações que beiram o nonsense. Promessas eleitorais sem lastro, acusações sem provas, teorias conspiratórias – tudo isso compete por espaço na esfera pública. Ao repórter e ao editor cabe o discernimento de não transformar cada absurdo em manchete. Como ensina a boa prática jornalística, “não publique aquilo que não merece ser lido”.

Dizer “não vale nem comentar” não é censura nem preguiça intelectual. É um juízo de valor sobre a substância da informação. É preferível investir tempo e recursos na apuração de temas que realmente afetam a vida do cidadão – saúde, educação, economia, direitos – do que perder energia com factóides que só geram ruído.

O público também tem um papel nesse processo. Em um ambiente digital onde o engajamento muitas vezes recompensa o exagero, o leitor pode e deve escolher não dar atenção ao que é vazio. Cada clique, cada compartilhamento é um voto de relevância. Ignorar o insignificante é uma forma de fortalecer o debate público.

O Repórter Brasil, fiel à sua missão de cobrir a política além das manchetes, prefere o silêncio diante do que não agrega. Em vez de comentar o incomentável, dedica suas páginas à informação que faz diferença. Afinal, há assuntos que simplesmente não valem nem comentar.