ABRAJI recorre de tese que culpa jornais por entrevistas

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a tese jurídica que responsabiliza veículos de imprensa pelo conteúdo de entrevistas concedidas por terceiros. A entidade argumenta que a decisão questionada fere a liberdade de expressão e pode levar à autocensura nos meios de comunicação.

A tese foi aplicada em um caso concreto em que um jornal foi condenado a indenizar uma pessoa por declarações feitas por um entrevistado. Para a ABRAJI, essa interpretação cria um precedente perigoso, porque transfere ao veículo a responsabilidade por falas que ele apenas veicula, sem necessariamente endossar.

Os argumentos da ABRAJI

No recurso encaminhado ao STF, a ABRAJI defende que a liberdade de imprensa, garantida no artigo 5º, incisos IV e IX, da Constituição Federal, protege a atividade jornalística e o direito de informar. A entidade sustenta que a responsabilidade pelas declarações deve ser do entrevistado, a menos que o veículo tenha agido com dolo ou má-fé.

Além disso, a ABRAJI aponta que a tese contraria a jurisprudência consolidada do STF, que em diversas ocasiões reafirmou a proteção à liberdade de imprensa como pilar do Estado Democrático de Direito. A decisão questionada, segundo a entidade, representa um retrocesso e gera insegurança jurídica.

Implicações para o jornalismo

Caso a tese seja mantida, o impacto sobre o jornalismo será significativo. Entrevistas com fontes controversas, denunciantes ou especialistas em temas polêmicos tendem a ser evitadas por receio de ações judiciais. Isso reduz a diversidade de opiniões e prejudica o debate público.

A ABRAJI também destaca que a decisão final do STF terá repercussão geral, ou seja, servirá de referência para todo o Judiciário. Por isso, a entidade se mobilizou para apresentar seus argumentos como amicus curiae no processo.

O contexto jurídico

Em âmbito internacional, a liberdade de imprensa é protegida por tratados dos quais o Brasil é signatário, como a Convenção Americana de Direitos Humanos. A ABRAJI ressalta que a tese afronta esses compromissos e que a decisão do STF será acompanhada por organizações internacionais de defesa da liberdade de expressão.

A associação, que há mais de 20 anos atua na defesa do jornalismo investigativo, reforça que a liberdade de imprensa não é um privilégio dos veículos, mas um direito da sociedade. A criminalização ou responsabilização excessiva dos meios de comunicação enfraquece a democracia.

Expectativas para o julgamento

O recurso aguarda julgamento no STF. A expectativa é de que a Corte reafirme a proteção constitucional à atividade jornalística e derrube a tese que responsabiliza jornais por entrevistas. A ABRAJI continuará acompanhando o caso e atuando em defesa da liberdade de expressão e do direito à informação.

A decisão final do STF terá impacto direto sobre a forma como o jornalismo é praticado no Brasil, e a ABRAJI espera que o tribunal reafirme o entendimento de que a imprensa não pode ser responsabilizada por dar voz a entrevistados, sob pena de censura indireta.

O caso segue em tramitação e ainda não há data para julgamento. A ABRAJI permanece mobilizada para garantir que o direito de informar não seja cerceado.