Em Barreiras, eleitores que votaram em Bolsonaro se dividem entre quatro pré-candidaturas

A menos de três meses das eleições municipais de 2024, o cenário político em Barreiras, no oeste da Bahia, revela uma fragmentação inesperada entre o eleitorado conservador. Os eleitores que em 2018 e 2022 depositaram seus votos em Jair Bolsonaro (PL) agora se veem diante de quatro pré-candidaturas que disputam o mesmo capital político. Essa dispersão ameaça a hegemonia da direita na cidade e pode redefinir as alianças para o pleito de outubro.

O peso do bolsonarismo em Barreiras

Barreiras, cidade polo da região do Extremo Oeste baiano, registrou uma das maiores votações proporcionais de Bolsonaro na Bahia. Nas eleições de 2022, o então presidente obteve mais de 60% dos votos válidos no município, consolidando uma base fiel. Esse eleitorado, em sua maioria, associava a figura de Bolsonaro a valores de direita, combate à corrupção e pautas conservadoras. No entanto, com a derrota presidencial e o afastamento do ex-presidente da vida política ativa — elegível apenas em 2030 — parte desse segmento busca novos líderes locais.

As quatro correntes da direita barreirense

A sucessão municipal de 2024 expôs as divergências internas desse campo. Não há um nome único capaz de unificar os bolsonaristas; em vez disso, pelo menos quatro pré-candidaturas emergiram, cada uma tentando se apresentar como a herdeira legítima do legado conservador.

1. O grupo da continuidade municipal

A primeira corrente é encabeçada por setores ligados ao atual prefeito, que buscam dar continuidade a uma gestão de centro-direita, com ênfase em obras e infraestrutura. Embora não sejam assumidamente bolsonaristas, cortejam o eleitor conservador com discurso de eficiência administrativa e parceria com o governo estadual. Esse grupo aposta na máquina pública e no recall do gestor atual para atrair os votos moderados.

2. A ala bolsonarista radical

A segunda pré-candidatura representa a parcela mais intransigente do bolsonarismo local. Composta por ex-aliados do ex-presidente e lideranças que participaram de atos nas redes sociais, essa corrente defende pautas como a intervenção militar, o armamento civil e o combate ao "comunismo". Seu discurso é mais agressivo e cola na imagem de Bolsonaro, mas enfrenta resistência do eleitorado pragmático.

3. O centro político com verniz conservador

A terceira via é ocupada por um grupo que se define como "independente", mas que adota bandeiras caras ao bolsonarismo: redução de impostos, segurança pública dura e críticas ao governo Lula. Liderada por um empresário com boa inserção nas redes sociais, essa candidatura tenta atrair tanto os insatisfeitos com a gestão municipal quanto os que desejam uma direita mais "moderna" e menos ideológica.

4. A novidade: o outsider da direita jovem

Por fim, uma quarta pré-candidatura surge de figuras mais jovens, ligadas a movimentos de renovação política, como o "Novo" e setores liberais. Essa corrente aposta em temas como empreendedorismo, tecnologia e transparência, e busca se diferenciar das demais pela comunicação digital e pela rejeição ao "velho politiqueiro". Apesar de minoritária, essa parcela tem potencial de crescimento entre eleitores de primeira viagem.

Como os eleitores reagem à fragmentação

Pesquisas qualitativas informais realizadas por institutos locais indicam que o eleitor médio de direita em Barreiras está confuso. Muitos declaram que votariam novamente em Bolsonaro, mas não sabem em quem depositar o voto para prefeito. A polarização nacional entre Lula e Bolsonaro ainda influencia, mas as questões locais — emprego, saúde, educação — ganham peso na decisão.

Há também um segmento significativo de eleitores que, decepcionados com a falta de unidade, cogitam anular o voto ou migrar para candidaturas de centro-esquerda, o que poderia beneficiar o PT ou aliados na cidade. A esquerda, por sua vez, aposta na união em torno de uma única candidatura para aproveitar a racha conservadora.

Cenário e perspectivas

Analistas políticos ouvidos pelo Repórter Brasil avaliam que a direita barreirense dificilmente levará a eleição no primeiro turno. A fragmentação tende a pulverizar os votos, forçando um segundo turno no qual duas dessas pré-candidaturas poderiam se unir — ou uma delas se aliar ao centro. O tempo de propaganda eleitoral gratuita e o apoio de lideranças estaduais serão cruciais para definir qual dos quatro grupos conseguirá se consolidar como o principal representante do bolsonarismo local.

Conclusão: o legado bolsonarista em disputa

A situação de Barreiras espelha um fenômeno que se repete em diversas cidades brasileiras: o bolsonarismo, enquanto movimento, sobrevive à ausência de Bolsonaro na urna, mas enfrenta dificuldades para se institucionalizar em projetos políticos locais. As quatro pré-candidaturas refletem a riqueza e a fragmentação da direita brasileira. Caberá ao eleitor barreirense decidir qual delas — ou qual alternativa — levará a cidade pelos próximos quatro anos.