Coelba inaugura subestações em Barreiras e São Desidério, mas prefeitura de Barreiras tenta capitalizar obra alheia em plena campanha eleitoral

A Neoenergia Coelba inaugurou, no início de agosto, duas novas subestações de energia elétrica nos municípios de Barreiras e São Desidério, no oeste da Bahia. As estruturas fazem parte do plano de expansão da companhia para o interior do estado e representam um investimento milionário para reforçar o sistema de distribuição em uma das regiões de maior crescimento econômico do estado. Enquanto a população comemora a melhoria no fornecimento, a Prefeitura de Barreiras passou a veicular em redes sociais e eventos oficiais que a obra seria fruto de sua gestão — o que gerou controvérsia em meio à campanha eleitoral municipal.

As subestações têm capacidade para atender a demanda crescente dos polos industriais e agrícolas da região do Extremo Oeste baiano, uma das fronteiras agrícolas mais dinâmicas do país. O sistema anterior já vinha operando no limite, com registros de oscilações e quedas de tensão, especialmente durante o período de irrigação das lavouras de soja, milho e algodão. A Coelba, por meio de nota, informou que as novas unidades vão beneficiar diretamente milhares de consumidores nos dois municípios, com destaque para os distritos industriais e comunidades rurais que antes dependiam de redes mais antigas e sujeitas a interrupções.

Investimento e melhoria na distribuição

As duas subestações são do tipo digital, com tecnologia de monitoramento remoto, o que permite resposta mais rápida a eventuais falhas e maior eficiência na distribuição de energia. A empresa também afirmou que está avaliando a construção de mais duas unidades na mesma região para atender a demanda projetada para os próximos cinco anos, considerando o avanço do agronegócio e a urbanização crescente de cidades como Barreiras, que já ultrapassa 160 mil habitantes e se consolida como polo regional de serviços, educação e saúde.

Moradores de bairros periféricos de Barreiras e comunidades rurais de São Desidério relataram à reportagem que os constantes blecautes vinham prejudicando pequenos negócios, equipamentos domésticos e a irrigação de hortas comunitárias. Com as novas subestações, a expectativa é de que a qualidade do serviço melhore significativamente, reduzindo o número de interrupções não programadas e estabilizando a tensão para consumidores residenciais e comerciais.

Apropriação política em ano eleitoral

O que deveria ser uma notícia exclusivamente positiva ganhou contornos políticos na reta final da campanha eleitoral. Em publicações oficiais e em eventos com servidores, a gestão municipal de Barreiras passou a associar a entrega das subestações à administração local, utilizando frases que sugeriam que a prefeitura "conseguiu" as obras para a cidade. Não há, contudo, qualquer evidência de que o investimento tenha partido do orçamento municipal — a obra foi executada com recursos próprios da Neoenergia Coelba, dentro de seu plano de universalização e melhoria da rede.

Especialistas em direito eleitoral consultados pela reportagem alertam que a apropriação de obras públicas por gestores em ano eleitoral pode configurar abuso de poder político, especialmente quando há divulgação institucional em período proibido ou quando se atribui ao gestor público uma realização que não foi executada diretamente pelo ente municipal. A legislação eleitoral brasileira proíbe, a partir do primeiro semestre do ano da eleição, a publicidade institucional de órgãos públicos que exceda o mero caráter informativo ou que promova agentes públicos.

O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) já havia emitido, ainda em junho, um alerta sobre o uso de inaugurações e entregas de obras durante o período de campanha. Ação semelhante ocorreu em outros municípios do interior baiano, onde gestores tentaram se associar a obras de responsabilidade do governo estadual ou de concessionárias federais.

Posicionamentos

Procurada, a assessoria da Prefeitura de Barreiras informou que "todas as ações de comunicação estão em conformidade com a legislação eleitoral" e que "o município sempre apoiou os investimentos da Coelba na região, tendo intermediado a cessão de áreas e a liberação de licenças municipais". A Neoenergia Coelba, por sua vez, limitou-se a declarar que as obras são parte de seu plano de investimentos e que não há relação direta com a gestão municipal, embora reconheça a colaboração institucional para a viabilização dos projetos.

A oposição em Barreiras já sinaliza que deve ingressar com representação no Ministério Público Eleitoral caso as peças publicitárias da prefeitura continuem vinculando a obra à gestão municipal. A cidade vive uma das disputas mais acirradas dos últimos anos, com múltiplos candidatos na disputa pela prefeitura e um eleitorado atento ao uso da máquina pública em benefício de candidatos à reeleição.

Impacto para a região

Para além da polêmica política, a entrada em operação das duas subestações é vista como essencial para a continuidade do crescimento econômico do oeste baiano. A região responde por uma parcela significativa da produção de grãos do estado e atrai investimentos em logística, agroindústria e energia renovável. Lideranças comunitárias e empresariais locais esperam que a melhoria na infraestrutura elétrica estimule novos negócios e gere empregos diretos e indiretos.

O episódio ilustra como obras de infraestrutura essenciais podem se tornar alvo de disputa política em períodos eleitorais, especialmente em cidades médias onde a entrega de equipamentos públicos gera capital eleitoral imediato. Para o eleitor, a recomendação de analistas políticos é buscar informações sobre a real origem dos investimentos e evitar ser influenciado por apropriações indevidas de realizações alheias. A população de Barreiras e São Desidério, enquanto isso, segue acompanhando de perto tanto os benefícios concretos das novas subestações quanto os desdobramentos da disputa eleitoral.