O Partido Progressista (PP) formalizou, nesta semana, o início das tratativas para uma federação partidária com o União Brasil, numa articulação que pode dar origem à maior força política do centrão brasileiro. A superfederação, como já vem sendo chamada nos bastidores, reuniria aproximadamente 120 deputados federais e 20 senadores, além de comandar um dos maiores fundos eleitorais do país.
O contexto da federação partidária
Desde que a emenda constitucional que criou as federações partidárias foi aprovada, em 2021, diversas legendas ensaiaram alianças duradouras. A federação entre PP e União Brasil, no entanto, se destaca por seu tamanho e impacto no tabuleiro eleitoral. Diferentemente das coligações provisórias, a federação obriga os partidos a atuarem como um bloco único por pelo menos quatro anos, compartilhando programas, candidaturas e posicionamentos.
O modelo já foi testado por PT, PCdoB e PV, de um lado, e pelo PSDB e Cidadania, de outro. Agora, o centrão entra na dança com a mesma estratégia. A diferença é que, no caso do PP e do União Brasil, o potencial numérico é significativamente maior. Somadas, as duas legendas têm presença em mais de 3 mil municípios e controlam dezenas de prefeituras e governos estaduais.
Poder, dinheiro e capilaridade
A principal engrenagem da superfederação é o fundo eleitoral. Nas eleições de 2022, PP e União Brasil juntos receberam mais de R$ 1,2 bilhão do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC). Com a união, a cúpula partidária teria controle centralizado sobre esses recursos, o que aumenta o poder de barganha com candidatos e fornecedores de campanha.
Além do dinheiro, a federação garante tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. A soma dos dois partidos proporcionaria o maior tempo entre todos os blocos partidários, algo crucial para a visibilidade das candidaturas majoritárias.
Outro fator é a capilaridade. O PP tem musculatura no Sul e no Centro-Oeste, especialmente nos setores do agronegócio e da construção civil. O União Brasil, por sua vez, herdou a estrutura do antigo DEM e do PSL, com forte presença no Nordeste — onde conseguiu eleger governadores e prefeitos. Juntos, eles cobrem praticamente todo o território nacional.
Estratégia eleitoral e projeção para 2026
O calendário político já está de olho em 2026. Com Lula e Bolsonaro ainda como protagonistas, o centrão busca construir uma alternativa que dialogue com o eleitorado moderado e, ao mesmo tempo, preserve as bases conservadoras. A superfederação pode ser a plataforma ideal para esse projeto.
Nos planos mais ambiciosos, o bloco poderia lançar um nome próprio à Presidência da República. Mas, em um cenário mais realista, a meta é eleger a maior bancada na Câmara e no Senado, tornando-se indispensável para qualquer governo. Com cerca de 160 votos em potencial, a superfederação teria poder de veto sobre pautas relevantes.
“A política brasileira caminha para a consolidação de três grandes blocos: o lulismo, o bolsonarismo e o bloco do centrão. Essa federação é o passo mais concreto para estruturar essa terceira força”, avalia o cientista político Carlos Melo, em entrevista à Repórter Brasil.
Bastidores das negociações
As conversas entre PP e União Brasil começaram discretamente ainda em 2024. Os presidentes nacionais, Ciro Nogueira (PP) e Luciano Bivar (União Brasil), são os principais articuladores. Nos bastidores, no entanto, há divergências importantes.
A principal resistência parte das executivas estaduais. Em estados como Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul, as duas legendas têm lideranças fortes que não querem abrir mão de seu espaço político. A distribuição de diretórios regionais e a escolha de candidatos a governador e senador são pontos sensíveis.
Outro ponto de atrito é o comando do fundo partidário. Cada partido tem sua própria máquina financeira, e a unificação exige transparência e acordo sobre a gestão dos recursos. Fontes ligadas às negociações afirmam que a criação de um comitê gestor paritário está sendo estudada.
Reações e críticas
A movimentação foi recebida com cautela por outros partidos do centrão, como Republicanos e o próprio Progressistas (dissidência do PP). A aliança pode enfraquecer legendas menores que dependiam do apoio desses partidos para sobreviver.
A oposição, especialmente o PT e o PSOL, criticou a iniciativa, classificando-a como “mais do mesmo: a velha política usando o Estado para se perpetuar no poder”. Já setores do governo avaliam a federação com pragmatismo, desde que ela não se torne uma trincheira de oposição radical.
Nas redes sociais, os termos “superfederação” e “centrão” tornaram-se trending topics. Enquanto apoiadores comemoram a união como a “criação de um polo de estabilidade”, críticos alertam para o risco de partidos cada vez mais descolados da sociedade.
Desafios jurídicos e prazos
Para que a federação seja oficializada, o processo precisa cumprir várias etapas. Primeiro, as convenções nacionais dos dois partidos devem aprovar o acordo. Depois, o estatuto da federação precisa ser registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até o dia 1º de outubro de 2025, ou seja, um ano antes do primeiro turno de 2026.
O prazo é curto para um acordo dessa magnitude. Além disso, a federação tem duração mínima de quatro anos e não permite a saída unilateral de um dos partidos. Caso um dos membros decida romper, a legenda infratora pode perder o direito de usar o fundo partidário e o tempo de TV por todo o mandato.
“É uma camisa de força que pode dar certo se houver coesão programática, mas também pode se tornar um casamento infeliz se as diferenças internas forem muito grandes”, afirma o advogado eleitoral Marcelo Weick.
O que esperar da superfederação
Se concretizada, a superfederação PP–União Brasil será o maior bloco partidário da história recente do Brasil. Ela não apenas influenciará diretamente as eleições de 2026, como também poderá moldar o funcionamento do presidencialismo de coalizão nos próximos anos.
A tendência é que outros partidos do centrão, como o Republicanos e o Solidariedade, busquem se aproximar do bloco, ampliando ainda mais sua força. O cenário de médio prazo é de uma reorganização do sistema partidário brasileiro em torno de três grandes polos ideológico-eleitorais: esquerda, direita bolsonarista e o consolidado bloco do centrão.
Para o eleitor, a federação pode significar mais clareza na oferta política, já que os partidos serão obrigados a atuar de forma coesa no Congresso e nas campanhas. Mas também reduz a diversidade de opções, já que legendas menores podem ser engolidas ou ficar sem espaço.
* Reportagem atualizada em 15 de março de 2025. Colaboração de Luís Carlos Nunes.
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