Saúde em Xeque: Enquanto Paulo Afonso avança com Hospital Universitário, Barreiras aposta em PPP com riscos de cobrança e "SUS Dual"

A região oeste da Bahia vive um contraste na área da saúde. Enquanto Paulo Afonso avança com a implantação de um Hospital Universitário (HU) federal, o município de Barreiras aposta em uma Parceria Público-Privada (PPP) para gerir sua unidade hospitalar — modelo que, segundo especialistas, pode trazer riscos de cobrança direta ao usuário e criar um "SUS Dual", onde o acesso gratuito e universal convive com serviços pagos dentro do mesmo sistema público.

O cenário da saúde no interior baiano

A Bahia é um dos estados mais populosos do Brasil, com grande parte da população vivendo em cidades médias e pequenas que dependem do SUS. A oferta de leitos hospitalares e especialidades médicas é desigual, e muitos pacientes precisam se deslocar para centros maiores. Nesse contexto, municípios como Paulo Afonso e Barreiras tentam ampliar sua rede própria. As duas cidades, distantes cerca de 500 km, representam polos de saúde para suas regiões. A forma como cada uma busca solucionar suas carências revela duas filosofias distintas de gestão pública.

Paulo Afonso e o Hospital Universitário

Paulo Afonso, no nordeste baiano, conseguiu viabilizar um Hospital Universitário por meio de parceria com a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). O HU é um modelo consagrado no Brasil: oferece atendimento 100% SUS, integra ensino, pesquisa e extensão, e forma profissionais de saúde. O projeto já teve obras iniciadas e promete aliviar a pressão sobre a rede local. A vantagem é a gratuidade total para o usuário e a qualidade associada ao ambiente acadêmico. O desafio é a manutenção dos custos e a garantia de repasses federais regulares. A expectativa é que a unidade atenda não apenas a população local, mas também cidades vizinhas, reduzindo a demanda reprimida por leitos e cirurgias.

Barreiras e a aposta na PPP

Em Barreiras, maior cidade do oeste baiano, a prefeitura optou por uma PPP para construir e administrar o novo Hospital Municipal. O modelo prevê investimento privado na infraestrutura e operação, com remuneração baseada em desempenho e, em alguns casos, possibilidade de cobrança de taxas moderadoras ou serviços extras não cobertos pelo SUS. A promessa é de agilidade e modernização, mas organizações de defesa do direito à saúde alertam para o risco de mercantilização do atendimento. Conselhos municipais de Saúde locais têm questionado a transparência dos contratos.

O risco do "SUS Dual"

O termo "SUS Dual" tem sido usado por especialistas para descrever a situação em que um mesmo hospital público oferece dois padrões de atendimento: um gratuito, com filas e limitações, e outro pago, com mais conforto e agilidade. Esse modelo, adotado em diversos países, é visto como uma forma de ampliar o investimento privado na saúde pública, mas pode gerar segmentação e desigualdade. No Brasil, a Constituição determina que o SUS é universal e gratuito, e qualquer cobrança por procedimentos essenciais é ilegal. Contudo, brechas contratuais em PPPs podem permitir cobranças por "serviços adicionais", como escolha de médico ou quarto individual, criando uma pressão sobre o paciente que, na prática, pode levar a um atendimento diferenciado baseado na capacidade de pagamento.

Comparação entre os modelos

Enquanto o HU federal representa uma expansão clássica da rede pública, sem custos diretos ao cidadão, a PPP insere lógica de mercado na saúde pública. A experiência internacional mostra que PPPs podem trazer eficiência, mas também exigem forte capacidade de regulação e controle social para evitar que o lucro se sobreponha ao direito. Em Barreiras, a ausência de transparência nos contratos tem gerado preocupação entre conselhos municipais de saúde. Já o HU de Paulo Afonso segue o modelo tradicional, mas pode sofrer com falta de recursos e pessoal caso os repasses federais não acompanhem a demanda.

O que está em jogo para a população?

A população de Barreiras e região corre o risco de enfrentar um sistema híbrido onde quem pode pagar recebe atendimento mais rápido e confortável, enquanto os demais ficam com filas e estrutura básica. Em Paulo Afonso, o HU deve seguir o modelo tradicional, mas pode sofrer com falta de recursos e pessoal. O debate entre as duas abordagens reflete uma tensão nacional sobre o futuro do SUS. A experiência dessas cidades pode influenciar políticas em todo o país.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que significa "SUS Dual"?

É a coexistência, dentro do mesmo hospital público, de atendimento gratuito integral e serviços pagos, criando dois níveis de acesso. O termo tem sido usado para criticar modelos de PPP que permitem cobrança por acomodações ou serviços não essenciais.

A PPP pode cobrar pelo atendimento?

Em tese, não. O contrato pode prever cobrança apenas por serviços não cobertos pelo SUS (como quarto privativo ou acompanhante). Mas há o risco de "venda casada" e pressão sobre pacientes vulneráveis para que optem por serviços pagos, mesmo quando o procedimento é garantido pelo SUS.

O Hospital Universitário é sempre gratuito?

Sim. Hospitais Universitários federais são financiados com recursos do orçamento público e não podem cobrar dos usuários, pois integram a rede SUS. Todo atendimento é integralmente gratuito.

Qual modelo é melhor para a população?

Não há consenso. O HU garante gratuidade e integração com ensino, mas pode ter limitações orçamentárias. A PPP pode acelerar a conclusão de obras e trazer eficiência de gestão, mas exige regulação rígida e controle social para proteger o direito universal à saúde. Cada caso deve ser avaliado com transparência.

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