Brasil registrou um conflito no campo a cada quatro horas em 2022

O Brasil registrou uma média de um conflito no campo a cada quatro horas ao longo de 2022, totalizando cerca de 2.190 ocorrências. Os dados são do relatório anual “Conflitos no Campo”, divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), que aponta uma escalada na violência fundiária em todas as regiões do país.

O levantamento da CPT contabiliza disputas por terra, água e direitos trabalhistas. Em 2022, houve um aumento expressivo no número de invasões, ameaças, despejos e assassinatos no meio rural. Os estados da Amazônia Legal, como Pará, Maranhão e Mato Grosso, lideram os rankings de conflitos, impulsionados pela grilagem de terras públicas e pelo avanço do garimpo ilegal e do agronegócio sobre territórios indígenas e quilombolas.

Os povos originários e as comunidades tradicionais seguem como os grupos mais vulneráveis. A demora na demarcação de terras e a falta de fiscalização ambiental criam um ambiente propício para a violência. Lideranças indígenas e sem-terra sofreram ataques e ameaças de morte, evidenciando a fragilidade das políticas de proteção territorial. A atuação de órgãos como a Funai e o Incra permanece sobrecarregada e com orçamento reduzido.

A violência contra as mulheres e a juventude do campo também foi destaque nos relatórios de 2022. Além dos conflitos agrários, o trabalho análogo à escravidão, frequentemente flagrado em fazendas e carvoarias, reforça o quadro de precarização das relações trabalhistas no setor primário. A atuação dos movimentos sociais, como o MST e a CPT, segue sendo fundamental para denunciar as violações e pressionar por direitos, enfrentando uma crescente criminalização de suas lideranças.

A reforma agrária, um dos mecanismos mais eficazes para a pacificação do campo, continua travada. O número de famílias assentadas foi o menor da última década, enquanto a concentração fundiária se aprofunda. Os conflitos pela água também ganharam destaque, especialmente no semiárido nordestino, onde a disputa por reservatórios e açudes se intensificou durante a estiagem.

Os números de 2022 acendem um alerta para a necessidade urgente de políticas públicas integradas de ordenamento fundiário e proteção dos direitos humanos. Enquanto um conflito ocorre a cada quatro horas, a ausência do Estado e a impunidade alimentam o ciclo de violência. A garantia da paz no campo exige ações concretas de regularização de terras, fiscalização ambiental e punição aos responsáveis pelos crimes, assegurando justiça social e segurança para as populações rurais.