O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta quinta-feira (13), durante discurso na sede do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) em Xangai, na China, que os países do BRICS ampliem o uso de suas moedas locais no comércio entre si como alternativa ao dólar. A proposta visa reduzir a vulnerabilidade dos países emergentes às flutuações cambiais e à política monetária dos Estados Unidos.
Em sua primeira visita oficial à China desde o retorno ao terceiro mandato, Lula fez um pronunciamento de forte teor crítico ao atual sistema financeiro internacional. O presidente brasileiro afirmou que o comércio entre os países do BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – precisa ser feito em moedas locais, e não mais atrelado ao dólar.
“Toda noite fico me perguntando por que todos os países são obrigados a fazer seu comércio lastreado no dólar. Por que não podemos fazer comércio lastreado em nossas próprias moedas?”, questionou Lula durante o discurso. A declaração foi recebida com aplausos pelos presentes na sede do banco multilateral.
Crítica à hegemonia do dólar
Lula argumentou que a dependência do dólar prejudica os países em desenvolvimento e que o BRICS tem condições de construir uma nova arquitetura financeira mais equilibrada. Para o presidente, o sistema monetário internacional desenhado após a Segunda Guerra Mundial já não reflete a realidade econômica global do século XXI, especialmente com o crescimento acelerado das economias emergentes.
O presidente brasileiro apontou que a atual concentração das reservas internacionais e das transações comerciais em uma única moeda expõe os países periféricos a choques externos e a decisões de política monetária tomadas por um país sobre o qual não têm qualquer influência. “Não queremos substituir a hegemonia de uma moeda pela de outra. Queremos um sistema multipolar que ofereça opções e estabilidade para todos”, disse.
Lula também lembrou que a criação do Novo Banco de Desenvolvimento, em 2014, já foi um primeiro passo nessa direção, ao demonstrar que os países do BRICS são capazes de construir instituições financeiras próprias e adaptadas às suas necessidades.
O papel do Novo Banco de Desenvolvimento
A visita à sede do NBD teve forte simbolismo. O banco, criado por iniciativa dos países do BRICS, tem como objetivo financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos países-membros e em outras economias emergentes. Desde sua fundação, o NBD já aprovou mais de US$ 30 bilhões em projetos, com foco em energias renováveis, transportes, abastecimento de água e infraestrutura urbana.
Lula propôs que o banco atue também como facilitador do comércio em moedas locais. “O NBD pode ser a plataforma que permitirá que nossas exportações e importações sejam feitas em real, yuan, rúpia, rublo ou rand. Não precisamos de intermediários que nos enfraqueçam”, afirmou.
A presidente do NBD, Dilma Rousseff, que participou do evento, endossou a fala de Lula e destacou que a instituição já estuda mecanismos para ampliar o financiamento em moedas locais. “O banco nasceu com a visão de um mundo multipolar. Avançar na desconcentração monetária é parte natural desse processo”, disse Dilma.
Relações Brasil-China e acordos bilaterais
A passagem de Lula por Xangai marcou também o fortalecimento das relações bilaterais com a China, principal parceiro comercial do Brasil há mais de uma década. No primeiro trimestre de 2023, o comércio bilateral somou mais de US$ 25 bilhões, com destaque para as exportações brasileiras de soja, minério de ferro, petróleo e carne.
Durante a visita, Brasil e China firmaram quinze acordos bilaterais nas áreas de ciência e tecnologia, agricultura, saúde, educação e desenvolvimento industrial. Entre os destaques, está o memorando de entendimento para cooperação em cadeias produtivas e o acordo para uso de moedas locais nas transações comerciais, que deverá ser implementado gradualmente por meio de linhas de swap cambial entre os bancos centrais dos dois países.
O presidente brasileiro também visitou o centro de inovação da Huawei, em Xangai, onde discutiu parcerias para expansão da conectividade em áreas rurais e da infraestrutura de telecomunicações no Brasil. “A China tem tecnologia de ponta e o Brasil tem escala e necessidade. Essa combinação pode gerar desenvolvimento e inclusão digital”, avaliou Lula.
Repercussões e perspectivas para o BRICS
A proposta brasileira foi bem recebida por outros membros do BRICS, que já vêm discutindo mecanismos para reduzir a dependência do dólar. A Rússia, que enfrenta sanções financeiras ocidentais, tem pressionado por alternativas ao sistema SWIFT, enquanto a China já realiza parte expressiva de seu comércio com Rússia e Brasil em yuan.
Especialistas apontam que a criação de um sistema de pagamentos alternativo entre os países do BRICS poderia representar uma mudança significativa no cenário financeiro global. “A discussão não é nova, mas ganhou tração política com a guerra na Ucrânia e com a percepção de que o sistema baseado no dólar pode ser usado como arma geopolítica”, analisa o economista Marcos Troyjo, ex-presidente do NBD.
O avanço do comércio em moedas locais dentro do BRICS deve ocorrer de forma gradual, começando por operações bilaterais entre pares de países e, posteriormente, se expandindo para um sistema multilateral. A Índia e a África do Sul também manifestaram interesse em ampliar o uso de suas moedas no comércio intragrupo.
O próximo encontro de cúpula do BRICS, previsto para agosto na África do Sul, deverá ter a reforma do sistema financeiro internacional como um dos temas centrais da pauta. Lula confirmou presença e disse que levará propostas concretas para acelerar a desdolarização do comércio entre os países do bloco.
Contexto geopolítico da visita
A visita de Lula à China ocorre em um momento de reconfiguração da ordem global, com o avanço da multipolaridade e o crescimento da influência chinesa em diversas regiões do mundo. A guerra na Ucrânia e as tensões entre Estados Unidos e China acentuaram o debate sobre a necessidade de reforma das instituições multilaterais criadas no pós-guerra.
Para analistas, a posição brasileira busca equilibrar a relação com os dois maiores blocos econômicos mundiais. “O Brasil não está escolhendo lados. Está tentando construir autonomia e abrir espaço para seus interesses nacionais em um mundo cada vez mais fragmentado”, avalia a professora de relações internacionais da Universidade de São Paulo, Maria Regina Soares de Lima.
A China recebeu Lula com honras de chefe de Estado e demonstrou interesse em aprofundar a parceria estratégica com o Brasil. O presidente chinês, Xi Jinping, deve se encontrar com Lula em Pequim nos próximos dias, quando novos acordos bilaterais deverão ser assinados.
A viagem de Lula à China, a primeira a um país fora da América Latina desde o início de seu terceiro mandato, sinaliza a prioridade que o governo brasileiro pretende dar às relações com os países do Sul Global e à construção de uma agenda de desenvolvimento soberana e integrada às economias emergentes.



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