O esquema de cashback foi um dos mecanismos mais emblemáticos da corrupção descobertos pela Operação Lava Jato. O jornalista Leandro Demori, que acompanhou de perto as investigações, dedicou-se a explicar didaticamente como esse sistema funcionava, mostrando que não se tratava apenas de propina simples, mas de um fluxo financeiro organizado que envolvia empreiteiras, agentes públicos, doleiros e partidos políticos.
Leandro Demori é jornalista e foi um dos nomes à frente da cobertura da Lava Jato no The Intercept Brasil, onde coordenou a publicação dos diálogos da Vaza Jato. Sua familiaridade com os documentos processuais e com os bastidores da operação lhe permitiu traduzir conceitos jurídico-financeiros complexos em linguagem acessível. Em vídeos, artigos e entrevistas, Demori desmontou o esquema do cashback peça por peça, mostrando como a propina era devolvida depois do pagamento das obras.
O conceito de cashback
Demori explicou que o cashback era, essencialmente, a devolução de uma parte do dinheiro recebido por empresas em contratos superfaturados com a Petrobras e outras estatais. O termo em inglês foi adotado para descrever a “devolução” de valores que as empreiteiras faziam como forma de alimentar o caixa da corrupção. Diferentemente da propina tradicional, paga antes ou durante o contrato, o cashback ocorria após o pagamento da obra ou serviço, criando um ciclo contínuo de retroalimentação.
O nome “cashback” foi emprestado do sistema de fidelidade do comércio, mas aqui designava a comissão que as empreiteiras pagavam depois de receberem o valor integral do contrato. A lógica era simples: quanto maior o contrato superfaturado, maior o valor a ser devolvido aos agentes públicos que viabilizavam o negócio. Essa mecânica dificultava o rastreamento, porque o dinheiro circulava depois da operação formal, misturado a fluxos lícitos.
Como funcionava na prática
Na prática, o processo seguia etapas bem definidas:
- Uma empreiteira participava de uma licitação direcionada para uma obra de infraestrutura ou serviço.
- O contrato era assinado com valores inflados, incluindo uma margem para cobrir os custos extras e a propina devida.
- Após receber o pagamento pela obra, a empresa sacava o valor total e devolvia uma parte em espécie ou por meio de transferências para contas controladas por operadores financeiros – os doleiros.
- O dinheiro então era distribuído para agentes públicos, políticos e partidos que patrocinavam o esquema.
Demori destacava que o cashback funcionava como um “cartão de crédito” da corrupção: as empresas financiavam os políticos e depois eram pagas com contratos superfaturados, garantindo lucro mesmo após a devolução de parte dos recursos.
O cartel de empreiteiras, que atuava de forma coordenada na divisão dos contratos da Petrobras, era a engrenagem central do esquema. Cada empresa sabia sua cota e os percentuais de cashback esperados. O superfaturamento era calculado de modo a cobrir os custos extras, o lucro do empreiteiro e a propina. Depois do pagamento, o dinheiro era sacado em espécie ou enviado ao exterior por meio de operações de dólar-cabo, dificultando o rastreamento pelas autoridades.
O papel dos doleiros
Os doleiros eram peças-chave nesse sistema. Profissionais como Alberto Youssef e Carlos Habib Chater, entre outros, eram responsáveis por lavar o dinheiro, fazer a entrega dos valores em espécie e manter o fluxo financeiro oculto. Demori ressaltava que sem esses operadores o esquema não teria a capilaridade que alcançou.
Além da logística de entrega, os doleiros mantinham contas secretas no exterior, usavam empresas de fachada e empregavam mecanismos como o dólar-cabo para movimentar os recursos sem deixar rastros nos sistemas bancários oficiais. Eles também atuavam como “bancos” da propina, guardando valores e repassando conforme as instruções dos políticos e executivos.
A descoberta por meio das delações
As delações premiadas de executivos de grandes empreiteiras, como a Odebrecht (atual Novonor), Andrade Gutierrez e UTC, foram fundamentais para revelar o funcionamento do cashback. Os delatores detalharam percentuais, formas de pagamento e os destinatários da propina. Demori usou essas informações em suas explicações para mostrar como o sistema estava institucionalizado dentro das empresas.
Os delatores entregaram planilhas, e-mails e cronogramas de pagamento que permitiram à Polícia Federal e ao Ministério Público reconstruir a engenharia financeira do esquema. A partir desses documentos, Demori e outros jornalistas puderam demonstrar que o cashback não era uma prática esporádica, mas um método padronizado, com percentuais fixos e calendários de repasse.
O impacto das delações e o papel da imprensa
As revelações sobre o cashback provocaram forte repercussão na política e na sociedade brasileira. O trabalho da imprensa foi essencial para traduzir a complexidade técnica dos processos em informações acessíveis, alimentando o debate público sobre a necessidade de reformas no sistema de licitações, no financiamento político e no combate à corrupção. Jornalistas como Leandro Demori contribuíram diretamente para que o cidadão comum pudesse compreender o que estava em jogo.
Por que a explicação de Demori é importante
Leandro Demori conseguiu traduzir em linguagem acessível um esquema financeiro complexo. Sua didática ajudou o público leigo a entender que a corrupção não era fruto de ações isoladas, mas de um sistema organizado que envolvia desde altos executivos até políticos do alto escalão. Ele usou metáforas e exemplos concretos, como o do “cashback”, para tornar o tema palatável.
Em um tema frequentemente dominado por jargões jurídicos e financeiros, a habilidade de Demori de usar analogias do cotidiano ajudou a quebrar a barreira de entendimento. Suas explicações também contribuíram para que a sociedade cobrasse maior transparência e responsabilização dos envolvidos. Para muitos, foi a primeira vez que conseguiram visualizar como funcionava, na prática, a propina na maior operação anticorrupção do país.
Perguntas frequentes sobre o cashback da Lava Jato
O cashback era ilegal?
Sim, o cashback configurava corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, entre outros crimes.
Todos os contratos da Petrobras tinham cashback?
Não, mas uma parcela significativa dos contratos de grande valor, especialmente na Diretoria de Abastecimento e Serviços, foi alvo do esquema.
Quanto era o percentual de cashback?
Os percentuais variavam conforme o contrato e o poder de barganha dos envolvidos, mas estimativas apontam entre 1% e 5% do valor total do contrato, podendo chegar a mais em casos específicos.
Quem recebia os valores?
Políticos de diversos partidos, diretores da Petrobras, funcionários públicos e agentes políticos indicados por partidos da base aliada.
Como o esquema foi descoberto?
A partir de investigações da Polícia Federal, quebras de sigilo e delações premiadas, que revelaram a contabilidade paralela das empreiteiras.
O cashback era praticado apenas na Petrobras?
Investigações indicam que mecanismos semelhantes ocorreram em outras estatais e em órgãos da administração pública, mas a Petrobras foi o epicentro do esquema em volume de recursos.
Como o dinheiro era lavado?
Os valores passavam por doleiros, contas no exterior, empresas de fachada e operações de câmbio paralelo (dólar-cabo), sendo posteriormente reinvestidos ou distribuídos em espécie.
Qual foi o papel dos partidos políticos?
As delações apontaram que partidos da base aliada indicavam diretores e recebiam repasses regulares de propina, que abasteciam campanhas eleitorais e custeavam despesas partidárias.
O entendimento do cashback é essencial para compreender a profundidade da corrupção revelada pela Lava Jato. O trabalho de jornalistas como Leandro Demori, que se dedicam a explicar didaticamente esses mecanismos, contribui para o fortalecimento da democracia e da transparência pública. Quanto mais a sociedade compreende os métodos da corrupção organizada, mais preparada fica para cobrar mudanças e evitar que se repitam.