O Governo da Bahia definiu que o futuro Hospital Regional de Paulo Afonso será administrado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), consolidando um modelo de gestão pública e universitária. Enquanto isso, em Barreiras, a administração municipal mantém a defesa da privatização dos serviços de saúde, gerando um debate sobre qual caminho é mais eficiente para o SUS na região.
Hospital Regional de Paulo Afonso: parceria com a Univasf
O Governo da Bahia anunciou que o Hospital Regional de Paulo Afonso, ainda em fase de projeto, será gerido pela Univasf. A escolha representa uma aposta na integração entre ensino, pesquisa e assistência. Hospitais universitários são reconhecidos por aliar formação de profissionais de saúde à prestação de serviços de alta complexidade, especialmente em regiões com carência de especialistas.
A Univasf já possui experiência na administração de unidades de saúde no sertão nordestino. A gestão compartilhada com o estado prevê que a universidade seja responsável pela direção técnica e administrativa, enquanto o governo estadual garante o financiamento e a infraestrutura. O modelo permite a abertura de novos leitos, a ampliação do atendimento ambulatorial e a realização de cirurgias eletivas que hoje são encaminhadas para outras cidades.
Além disso, a presença de um hospital-escola atrai médicos residentes e pesquisadores, o que pode melhorar a qualidade do atendimento e reduzir a dependência de profissionais temporários. Para a população de Paulo Afonso e municípios vizinhos, a expectativa é de acesso mais rápido a consultas e exames especializados.
Barreiras e a opção pela privatização
Em Barreiras, a prefeitura tem defendido a terceirização da gestão para Organizações Sociais (OS). A justificativa é a suposta agilidade na contratação de pessoal e na aquisição de insumos, além da possibilidade de contornar amarras burocráticas da administração direta. O município já vem adotando esse modelo em unidades básicas e agora estuda estendê-lo ao hospital regional.
No entanto, críticos apontam falta de transparência nos contratos e riscos de descontinuidade no atendimento. Conselhos municipais de saúde e movimentos sociais têm se mobilizado contra a privatização, realizando audiências públicas e cobrando a realização de estudos de impacto. A experiência de outras cidades brasileiras mostra que, sem controle social efetivo, a terceirização pode gerar superfaturamento e redução da qualidade dos serviços.
Gestão pública vs. privatização: o que dizem as evidências?
O debate entre gestão pública direta e privatização é complexo e não tem uma resposta única. Os principais pontos levantados por especialistas incluem:
- Hospitais universitários tendem a oferecer atendimento mais humanizado, com foco na integralidade do cuidado e na formação de recursos humanos para o SUS.
- Organizações Sociais podem trazer flexibilidade administrativa, mas exigem forte controle social e contratos bem desenhados para evitar desvios.
- Evidências internacionais indicam que não há superioridade absoluta de um modelo sobre o outro; o sucesso depende da governança, do financiamento estável e da participação da comunidade.
- No Brasil, hospitais filantrópicos e universitários frequentemente apresentam melhores indicadores de qualidade assistencial quando comparados a unidades puramente privadas ou puramente públicas sem integração acadêmica.
A experiência da Bahia pode contribuir para esse debate, já que o estado convive com modelos distintos dentro do mesmo território.
Desafios comuns da saúde regional
Paulo Afonso e Barreiras enfrentam problemas semelhantes: falta de médicos especialistas, infraestrutura deficiente, subfinanciamento do SUS e grande demanda reprimida. A pandemia de Covid-19 expôs essas fragilidades, com leitos de UTI lotados e longas filas por consultas.
A saída, segundo gestores ouvidos pela reportagem, passa pela cooperação entre União, estado e municípios. A regionalização dos serviços, com a criação de redes de atendimento que integrem atenção primária, ambulatorial e hospitalar, é apontada como caminho necessário. Nesse contexto, a aposta da Univasf em Paulo Afonso pode servir como modelo para outras regiões do estado.
Perguntas frequentes
- O que é um hospital universitário? É uma unidade de saúde vinculada a uma universidade, que integra assistência médica, ensino de graduação e pós-graduação e pesquisa científica. Costuma oferecer atendimento de média e alta complexidade.
- Qual a diferença entre gestão pública direta e privatização? Na gestão pública direta, a administração é feita pelo próprio ente público (estado ou município). Na privatização ou terceirização, a gestão é repassada a uma entidade privada, com ou sem fins lucrativos, por meio de contrato de gestão.
- Como a população pode participar do controle da saúde? Através dos Conselhos Municipais e Estaduais de Saúde, audiências públicas, ouvidorias e fiscalização de contratos. A transparência é fundamental para garantir a qualidade dos serviços.
O debate entre gestão pública e privatização da saúde não se encerra com essas duas experiências. A expectativa é que os resultados obtidos em Paulo Afonso e Barreiras possam orientar futuras decisões no estado e no país. A participação social e o compromisso com o fortalecimento do SUS continuam sendo os pilares para uma saúde pública de qualidade.