A cloroquina é um medicamento antimalárico utilizado há décadas no tratamento da malária e de doenças autoimunes, como lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatoide. Durante a pandemia de COVID‑19, tornou‑se o centro de um dos debates mais acirrados da história recente do Brasil, sendo promovida como parte do chamado “kit covid” — conjunto de medicamentos sem eficácia comprovada contra o novo coronavírus.
O que é a cloroquina?
A cloroquina é um derivado sintético da quinina, desenvolvido na década de 1940. No Brasil, é comercializada sob diferentes marcas e também na forma de hidroxicloroquina, que tem perfil de segurança ligeiramente melhor. Seu mecanismo de ação interfere na replicação de parasitas causadores da malária e modula a resposta imunológica, o que justifica seu uso em doenças reumáticas.
O medicamento é produzido nacionalmente por laboratórios públicos como Farmanguinhos (Fiocruz) e também por indústrias privadas. Sua distribuição é controlada pela Anvisa, e a venda exige prescrição médica.
A cloroquina na pandemia de COVID‑19
Em 2020, diante da ausência de tratamentos específicos para a COVID‑19, a cloroquina e a hidroxicloroquina foram testadas em diversos países. No Brasil, o governo federal, liderado então por Jair Bolsonaro, passou a defender o uso dos medicamentos como “tratamento precoce”, mesmo sem consenso científico. O Ministério da Saúde publicou protocolos autorizando a prescrição, e milhares de brasileiros fizeram uso dos fármacos.
A campanha pelo “kit covid” gerou forte polarização. Enquanto apoiadores do governo viam na cloroquina uma esperança, entidades científicas como a Fiocruz e a Sociedade Brasileira de Infectologia alertavam que não havia evidências robustas de eficácia e que os riscos de efeitos colaterais, como arritmias cardíacas, não justificavam o uso generalizado.
Evidências científicas e posição da Anvisa
Grandes estudos clínicos, incluindo o ensaio Solidarity da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pesquisas coordenadas por universidades brasileiras, não encontraram benefícios significativos da cloroquina no tratamento da COVID‑19. A OMS desaconselhou o uso do medicamento para a doença, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) manteve a cloroquina apenas para as indicações tradicionais registradas em bula.
Em 2021, a Anvisa aprovou o uso excepcional da hidroxicloroquina em casos graves, mas posteriormente reviu a decisão e reforçou a restrição. Atualmente, a agência segue a posição baseada em evidências, e nenhum protocolo oficial brasileiro recomenda a cloroquina contra a COVID‑19.
Cronologia dos principais fatos
- Março de 2020: Estudos iniciais sugerem possível eficácia; OMS anuncia o ensaio Solidarity.
- Maio de 2020: Estudo observacional aponta riscos; OMS suspende temporariamente os testes com hidroxicloroquina.
- Junho de 2020: OMS retoma os testes, mas os resultados definitivos não confirmam benefícios.
- 2021: CPI da COVID‑19 ouve depoimentos sobre a promoção do “kit covid” e a atuação de um “gabinete paralelo” no governo.
- 2022: Anvisa reafirma a indicação restrita da cloroquina, mantendo‑a apenas para malária, lúpus e artrite reumatoide.
Repercussão política e judicial
O tema foi amplamente discutido na CPI da COVID‑19, instaurada no Senado Federal em 2021. Depoimentos de ex‑integrantes do governo e de médicos revelaram pressões para a adoção do “tratamento precoce” e a existência de um canal paralelo de aconselhamento ao presidente. Investigações da Polícia Federal e do Ministério Público também abordaram o tema, e o Supremo Tribunal Federal foi chamado a decidir sobre a competência de estados e municípios para adotar protocolos próprios.
A cloroquina tornou‑se um símbolo da politização da ciência durante a pandemia. O debate expôs a fragilidade da comunicação científica e os desafios do sistema de saúde brasileiro diante de uma crise sanitária sem precedentes.
Perguntas frequentes
A cloroquina funciona contra a COVID‑19?
Não. Estudos clínicos robustos, incluindo o ensaio Solidarity da OMS, demonstraram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não apresentam benefícios significativos no tratamento da COVID‑19. A OMS e a Anvisa não recomendam seu uso para essa finalidade.
Quais são os riscos do uso da cloroquina?
Os principais riscos incluem arritmias cardíacas, lesões na retina (em uso prolongado), toxicidade hepática e reações alérgicas. Por isso, o medicamento deve ser usado apenas sob prescrição e para as indicações aprovadas.
A cloroquina ainda é usada hoje?
Sim, para o tratamento da malária, do lúpus eritematoso sistêmico e da artrite reumatoide, conforme bula aprovada pela Anvisa. O uso para COVID‑19 não é autorizado no Brasil.