Não somos obrigados a seguir todas as orientações dos EUA, diz Celso Amorim
O assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Celso Amorim, afirmou nesta sexta-feira (14) que o Brasil não tem a obrigação de acatar automaticamente todas as diretrizes vindas dos Estados Unidos. A declaração foi dada durante o seminário “Os Desafios do Século XXI”, na Universidade de Lisboa, em Portugal, e reafirma a política externa soberana e independente defendida pelo terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Não somos obrigados a seguir todas as orientações dos EUA. Temos nossos próprios interesses e nossa própria visão de mundo. O Brasil é um país soberano e age como tal”, declarou o ex-chanceler, que é um dos principais nomes da diplomacia brasileira e principal conselheiro internacional de Lula.
A fala de Amorim ocorre em um momento em que o Brasil busca reconstruir pontes com países da América Latina, África e Ásia, além de assumir um papel de protagonismo em blocos como o BRICS e o G20. A política externa brasileira sob Lula tem se caracterizado por uma postura de não alinhamento automático e pela defesa de uma reforma na governança global.
As relações entre Brasil e Estados Unidos, embora marcadas por cooperação em temas ambientais — especialmente com a volta de Lula ao poder —, têm apresentado divergências claras em assuntos geopolíticos sensíveis. O principal ponto de atrito no momento é a guerra na Ucrânia. Enquanto Washington pressiona por um isolamento total da Rússia, o Brasil defende uma solução negociada e mantém canais de diálogo abertos com Moscou.
A declaração de Amorim também toca na crescente relação do Brasil com a China, principal parceiro comercial do país. Para Amorim, a diversificação de parcerias é uma ferramenta estratégica que fortalece a soberania nacional. “Não se trata de ser anti-EUA, mas de ser pró-Brasil. Precisamos defender nossos interesses comerciais e políticos sem submeter nossa agenda a qualquer potência”, completou.
No cenário interno, as falas repercutiram rapidamente nas redes sociais e entre lideranças políticas. Parlamentares da base aliada elogiaram a defesa da soberania e a retomada de uma política externa ativa e independente. Já setores da oposição criticaram a declaração, classificando-a como um “alinhamento automático com regimes autoritários” e um “afastamento desnecessário” do tradicional aliado ocidental.
Especialistas em relações internacionais apontam que a postura de Amorim reflete a tradição da diplomacia brasileira, conhecida pelo pragmatismo e pela busca de autonomia. Figuras como o Barão do Rio Branco e San Tiago Dantas orientaram uma política externa que sempre buscou equilibrar os interesses nacionais com as pressões internacionais.
A passagem de Celso Amorim por Lisboa também incluiu reuniões com membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e encontros com empresários portugueses interessados em investir no Brasil. A agenda reforça o esforço do governo Lula em reativar parcerias históricas e abrir novos mercados para produtos brasileiros.
A fala do assessor presidencial deixa claro que o governo Lula pretende retomar um papel de protagonismo no cenário global, pautado pela não-intervenção, autodeterminação dos povos e busca por parcerias estratégicas que vão além do eixo Washington-Londres. “O mundo mudou e o Brasil precisa acompanhar essas mudanças com os próprios pés”, finalizou Amorim.