O sistema público de saúde de Formosa do Rio Preto, município localizado no extremo-oeste da Bahia, vive um colapso que se arrasta há anos. A falta de médicos especialistas, a infraestrutura sucateada do hospital municipal e a demora no agendamento de consultas e exames transformaram o direito à saúde em uma verdadeira via-crúcis para os moradores. O cenário revela não apenas a omissão das autoridades locais, mas também uma negligência histórica dos governos estadual e federal com os pequenos municípios do interior do Brasil.
O colapso anunciado
A cidade, que segundo estimativas do IBGE possui cerca de 25 mil habitantes, depende quase exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) local opera com capacidade limitada e frequentemente precisa encaminhar pacientes para outras cidades. O Hospital Municipal enfrenta problemas estruturais que vão desde a falta de leitos até a ausência de equipamentos básicos para cirurgias eletivas.
Pacientes relatam que chegam a esperar mais de 12 horas por um atendimento de urgência. Muitos desistem após longas horas de espera e buscam alternativas por conta própria em cidades vizinhas, como Barreiras, distante mais de 100 quilômetros. Os relatos de moradores indicam que a situação se agravou nos últimos dois anos, com o aumento da demanda e a redução dos investimentos municipais na área da saúde.
Falta de médicos e especialistas
Um dos principais gargalos do sistema de saúde municipal é a escassez de profissionais. Formosa do Rio Preto sofre com a falta de médicos para a atenção básica, o que sobrecarrega as unidades de saúde e compromete a prevenção de doenças. A rotatividade é alta: muitos profissionais deixam o município após poucos meses devido às condições de trabalho, aos baixos salários e à falta de planos de carreira.
Especialistas como cardiologistas, ortopedistas, neurologistas e pediatras são ainda mais raros. Para ter acesso a essas especialidades, os pacientes precisam se deslocar até Barreiras ou mesmo para Salvador, que fica a mais de 800 km de distância. A viagem, que exige planejamento e recursos financeiros, é inviável para grande parte da população de baixa renda, especialmente para idosos e pessoas com mobilidade reduzida.
A situação se agrava no caso de pacientes com doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, que necessitam de acompanhamento regular e enfrentam dificuldades para manter o tratamento em dia. Sem consultas periódicas nem acesso a medicamentos de uso contínuo, muitos acabam desenvolvendo complicações que poderiam ser evitadas, resultando em internações de emergência e em custos ainda maiores para o sistema.
Infraestrutura e equipamentos sucateados
Além da falta de profissionais, a infraestrutura física das unidades de saúde está em situação crítica. Equipamentos como aparelhos de raio-X, ultrassom, eletrocardiógrafos e até mesmo ambulâncias estão obsoletos ou quebrados. A manutenção preventiva é inexistente, e os insumos básicos, como medicamentos, luvas, seringas e materiais hospitalares, faltam com frequência.
A farmácia básica do município, que deveria fornecer medicamentos essenciais gratuitamente à população, enfrenta desabastecimento crônico. Pacientes relatam que precisam comprar remédios por conta própria, inclusive aqueles que fazem parte da lista de medicamentos essenciais do SUS. Profissionais da saúde que atuam no município e que pediram para não ser identificados contam que já precisaram improvisar materiais para realizar procedimentos simples. "Falta o básico. A gente faz o que pode com o que tem, mas não é o ideal", afirma um enfermeiro que trabalha na cidade.
O sofrimento da população
A crise na saúde tem impacto direto na qualidade de vida dos moradores de Formosa do Rio Preto. Gestantes precisam percorrer longas distâncias para realizar o pré-natal ou para dar à luz em condições mínimas de segurança. Idosos e pessoas com mobilidade reduzida são os mais afetados, pois dependem de transporte público ou de ambulâncias para chegar às unidades de saúde.
Casos de morte por falta de atendimento adequado são relatados com frequência pela comunidade. Em 2024, a cidade registrou pelo menos três mortes de pacientes que aguardavam regulação para transferência a unidades de maior complexidade, segundo denúncias de familiares encaminhadas ao Ministério Público da Bahia (MP-BA). A Ouvidoria Municipal de Saúde recebeu dezenas de reclamações formais sobre a demora no atendimento e a falta de médicos, mas até o momento nenhuma providência concreta foi anunciada.
A cobertura vacinal na cidade está abaixo da meta, e campanhas de prevenção contra dengue, chikungunya e zika são realizadas de forma esporádica. O município registrou um aumento significativo de casos de arboviroses nos últimos dois anos, sobrecarregando ainda mais o sistema de saúde, que já opera no limite de sua capacidade.
Responsabilidade e negligência das autoridades
Organizações da sociedade civil e conselhos municipais de saúde apontam a responsabilidade das três esferas de governo — municipal, estadual e federal. A prefeitura é acusada de má gestão dos recursos da saúde e de não priorizar o setor. O orçamento municipal destinado à saúde, segundo dados do Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde (SIOPS), tem ficado abaixo do mínimo constitucional de 15% em alguns exercícios, o que configura irregularidade.
O governo estadual, por sua vez, é criticado pela falta de apoio aos municípios do interior e pela demora na liberação de verbas para a saúde. A Central de Regulação Estadual, responsável por autorizar transferências de pacientes para hospitais de maior complexidade, é apontada como um dos principais gargalos do sistema. Já o governo federal é cobrado por uma política de financiamento do SUS que, na prática, não atende às necessidades dos pequenos municípios. O subfinanciamento crônico do sistema, aliado à burocracia para acesso a recursos federais, dificulta a gestão local da saúde e perpetua o ciclo de precariedade.
O que pode ser feito
Para reverter o quadro, especialistas em saúde pública apontam a necessidade de um pacto entre os entes federativos. Entre as medidas urgentes estão: a reestruturação da atenção básica com a contratação de mais médicos e enfermeiros, preferencialmente por meio de programas de provimento como o Mais Médicos; a modernização dos equipamentos do hospital municipal e das UPAs; a criação de um consórcio intermunicipal de saúde para compartilhar serviços especializados com cidades vizinhas; e o fortalecimento do controle social por meio dos conselhos municipais de saúde.
A atuação do Ministério Público e da Defensoria Pública é fundamental para garantir o direito à saúde da população. Ações civis públicas podem obrigar o poder público a adotar medidas concretas para melhorar o atendimento e a infraestrutura. Enquanto as soluções não chegam, a população de Formosa do Rio Preto segue refém de um sistema que não funciona — um retrato do abandono que atinge milhares de cidades brasileiras, especialmente no interior do Nordeste, onde a distância dos grandes centros e a falta de investimento transformam o direito à saúde em uma promessa não cumprida.