O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), enfrentou um revés político após realizar o evento “Arraiá Goiano” em Salvador no último fim de semana. A iniciativa, que tinha como objetivo projetar sua pré-candidatura à Presidência da República em 2026 e ampliar sua capilaridade no Nordeste, gerou críticas de aliados e adversários e expôs fissuras na estratégia de expansão nacional do governador.
O evento e a aposta no Nordeste
O “Arraiá Goiano” é uma tradicional festa junina que celebra a cultura do estado de Goiás, com comidas típicas, música sertaneja, quadrilhas e apresentações folclóricas. Ao levar a festa para Salvador, capital da Bahia, Caiado buscou enviar um sinal claro de que pretende disputar votos em uma região historicamente dominada por lideranças petistas e partidos de centro. A Bahia possui o segundo maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo, e tem sido alvo de investidas de pré-candidatos de oposição que miram 2026.
A escolha de Salvador não foi aleatória. Caiado vem tentando construir uma imagem de estadista capaz de dialogar com todas as regiões, e o evento junino serviria como vitrine para mostrar sua habilidade de articular fora de Goiás. A festa contou com shows, barracas de comidas típicas e discursos inflamados sobre a necessidade de uma “nova política” para o Brasil.
O baque político
Apesar da estrutura montada e da presença de apoiadores, o evento gerou reações negativas entre lideranças baianas e até mesmo dentro do União Brasil. Parlamentares e prefeitos do estado criticaram abertamente a movimentação de Caiado, interpretando-a como uma tentativa de invasão de território político. “A Bahia não é quintal de ninguém. Quem quiser conversar com o povo baiano que venha com respeito e não com palco montado”, disse um deputado estadual local, em tom de crítica.
Além do mal-estar regional, a ausência de caciques importantes do União Brasil no evento acendeu o sinal de alerta sobre o real apoio da legenda à pré-candidatura do governador goiano. Nem o presidente nacional do partido nem lideranças expressivas do Nordeste marcaram presença, o que gerou especulações sobre divisões internas na legenda. Para analistas políticos, a baixa adesão de figuras de peso do próprio partido indica que Caiado ainda precisa costurar um apoio mais sólido antes de se lançar ao Palácio do Planalto.
Repercussão entre aliados
Nos bastidores, aliados de Caiado reconhecem que o “Arraiá Goiano” em Salvador foi um movimento ousado, mas admitem que a execução deixou a desejar. “A ideia era mostrar que Caiado não é um político regional, mas nacional. O problema é que a política baiana é complexa e não se conquista com um evento festivo. É preciso presença constante, diálogo com prefeitos e lideranças comunitárias”, avaliou um deputado federal do União Brasil sob condição de anonimato.
Já adversários políticos aproveitaram o episódio para questionar a viabilidade da candidatura. Lideranças ligadas ao governo federal classificaram a iniciativa como “amadora” e “descolada da realidade”. Em entrevista a uma rádio local, um líder petista afirmou que “Caiado descobriu que política não se faz com arraiá, se faz com trabalho e compromisso com o povo”.
O cenário para 2026
A pré-candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência representa uma das principais apostas do centrão para a sucessão presidencial. O governador goiano tem se posicionado como uma alternativa de centro-direita, com discurso focado em segurança pública, desenvolvimento econômico e gestão fiscal. No entanto, o episódio do “Arraiá Goiano” em Salvador escancara os desafios que ele terá pela frente.
Para viabilizar sua candidatura, Caiado precisa consolidar o apoio dentro do União Brasil, ampliar sua base para além de Goiás e encontrar espaço em um cenário polarizado entre o atual governo e a oposição bolsonarista. A disputa promete ser acirrada, e o revés em Salvador serve como um alerta de que a estrada até 2026 será mais acidentada do que o planejado.
Apesar do baque, a equipe do governador mantém a estratégia de realizar eventos em outras regiões do país. O próximo passo seria um grande encontro no Sudeste, possivelmente em São Paulo, para tentar recuperar o ímpeto da pré-campanha. A expectativa é que Caiado anuncie oficialmente sua pré-candidatura no primeiro semestre de 2025, após as convenções partidárias e uma rodada de conversas com lideranças regionais.
Lições do episódio
O caso do “Arraiá Goiano” em Salvador ilustra os riscos de estratégias políticas que priorizam o simbolismo em detrimento da construção de bases sólidas. Especialistas em marketing político apontam que eventos pontuais podem gerar visibilidade, mas não substituem o trabalho de articulação e presença contínua nos territórios. Para Caiado, o recado é claro: a política brasileira exige mais do que festas e discursos — exige capacidade de unir, dialogar e entregar resultados concretos.
A pré-candidatura do governador goiano não está inviabilizada, mas o episódio expõe fragilidades que precisarão ser corrigidas nos próximos meses. Resta saber se a equipe de Caiado conseguirá transformar o revés em aprendizado e ajustar a rota a tempo de construir uma candidatura competitiva para 2026.
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