Embarcação encontrada no PA tinha como destino Ilhas Canárias, diz PF

A Polícia Federal (PF) confirmou nesta semana que a embarcação encontrada à deriva no litoral do Pará tinha como destino as Ilhas Canárias, arquipélago espanhol localizado na costa noroeste da África. A informação foi divulgada após análises técnicas realizadas pela perícia da PF, que encontrou documentos e equipamentos de navegação que indicavam a rota prevista. A embarcação foi localizada por pescadores na altura do município de Marudá, no nordeste paraense, e desde então está sob custódia da polícia.

De acordo com a PF, o barco — uma barca de fibra de vidro de aproximadamente 12 metros — estava desabitado, mas em condições de navegabilidade. Dentro dela foram encontrados coletes salva-vidas, alimentos não perecíveis, água potável, além de um sistema de GPS e cartas náuticas que apontavam claramente para o arquipélago. A polícia também recolheu documentos pessoais e objetos que podem ajudar na identificação de eventuais passageiros. A suspeita inicial é de que a embarcação tenha sido usada para transporte irregular de migrantes e que os ocupantes tenham desembarcado em algum ponto da costa brasileira antes de o barco ser abandonado.

As investigações da Polícia Federal

A PF instaurou inquérito para apurar a origem da embarcação, quem seriam os seus ocupantes e se há ligação com redes de tráfico de migrantes. De acordo com a nota oficial, a embarcação estava desabitada, mas foram encontrados suprimentos como alimentos não perecíveis, água potável, coletes salva-vidas e combustível. "As características indicam que a embarcação estava preparada para uma travessia oceânica de longa distância", afirmou o delegado responsável pelo caso, em coletiva de imprensa. A perícia também analisou documentos de bordo, alguns deles em idioma estrangeiro.

Os peritos da PF realizam exames de datiloscopia e DNA nos objetos apreendidos, na expectativa de identificar possíveis passageiros. Também está sendo rastreada a origem do combustível e dos suprimentos. A corporação não descarta a possibilidade de que a embarcação tenha feito parte de uma rota organizada por uma rede de contrabandistas que atua entre a África e o Brasil. A Polícia Federal já solicitou informações à Interpol e às autoridades marítimas de Portugal e Espanha para cruzar dados sobre embarcações suspeitas e rotas migratórias.

Rota incomum para o Brasil

A rota Brasil-Ilhas Canárias foge do padrão das rotas migratórias irregulares. O arquipélago espanhol é um destino frequente para embarcações que partem da costa ocidental africana, especialmente do Senegal, Mauritânia e Marrocos. Entretanto, a saída do Brasil – e especificamente da região Norte – é considerada atípica por especialistas. "Pode ser uma tentativa de estabelecer uma nova rota para driblar a fiscalização europeia, ou a embarcação pode ter se desviado de seu percurso original devido a condições climáticas ou falhas mecânicas", explicou um pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA). A PF não descarta a hipótese de que a embarcação tenha partido da África e sido arrastada pelas correntes até o Pará.

A distância entre a foz do Amazonas e o arquipélago das Canárias é de aproximadamente 4.800 km — uma travessia que levaria entre 15 e 25 dias, dependendo das condições do mar e dos ventos alísios. Uma embarcação de pequeno porte como a encontrada precisaria de reabastecimento em alto-mar ou de tanques extras para completar a viagem. A PF confirmou que foram localizados tanques adicionais de combustível, o que indica planejamento para uma navegação prolongada. Especialistas navais consultados pela reportagem avaliam que, sem apoio logístico, seria muito difícil que um barco desse porte conseguisse chegar às Canárias partindo do Brasil, o que reforça a tese de envolvimento de uma organização criminosa com capacidade de fazer abastecimento no mar.

Possíveis origens da embarcação

A PF trabalha com duas linhas de investigação principais. A primeira é de que a embarcação tenha partido de um país da costa oeste africana — como Senegal, Gâmbia ou Mauritânia — e, devido a falhas mecânicas ou à ação das correntes marítimas, tenha sido arrastada para a costa brasileira. Nesse caso, os migrantes poderiam ter sido resgatados por outra embarcação ou desembarcado em algum ponto do litoral norte do Brasil antes do abandono. A segunda hipótese, considerada menos provável pela PF, é de que o barco tenha saído de um porto brasileiro, possivelmente no Pará ou no Maranhão, com destino à Europa. Nesse cenário, os ocupantes poderiam ter abandonado a embarcação ao avistar a fiscalização ou após uma avaria.

Os documentos apreendidos incluem um registro de propriedade emitido em um país africano, o que dá mais peso à primeira hipótese. A PF aguarda resposta da Interpol para confirmar a autenticidade dos documentos e identificar o proprietário oficial. Enquanto isso, a Marinha do Brasil auxilia na análise das condições oceanográficas da região para reconstituir a deriva da embarcação.

O cenário da imigração para as Canárias

As Ilhas Canárias têm se tornado um dos principais portões de entrada de migrantes na Europa. Segundo a Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira (Frontex), as chegadas ao arquipélago aumentaram significativamente nos últimos anos, com milhares de pessoas arriscando a travessia do Atlântico em embarcações superlotadas e precárias. Centenas morrem afogadas todos os anos. A descoberta de uma embarcação com destino às Canárias no litoral brasileiro surpreendeu autoridades e acendeu alerta para possíveis novas rotas de imigração ilegal envolvendo o Brasil.

De acordo com dados da Frontex, as chegadas às Canárias cresceram cerca de 30% em 2023 em comparação com o ano anterior, totalizando mais de 39 mil imigrantes. A rota atlântica é considerada a mais mortal do mundo: estima-se que, em 2023, mais de 500 pessoas tenham morrido ou desaparecido na tentativa de alcançar o arquipélago. A maioria parte do litoral do Saara Ocidental e da Mauritânia. A chegada de uma embarcação com destino às Canárias na costa brasileira sugere que as redes de contrabando podem estar expandindo suas áreas de atuação, buscando alternativas para escapar da vigilância marítima europeia.

O Brasil na rota da imigração

O caso acende um alerta para o papel do Brasil, tanto como origem quanto como rota de trânsito, na imigração ilegal para a Europa. Embora o Brasil seja tradicionalmente um país de acolhida de imigrantes, o uso de seu território como ponto de partida para travessias atlânticas é um fenômeno relativamente novo. A PF já intensificou a fiscalização nos portos da região Norte e Nordeste e está em contato com agências internacionais para troca de informações. "Não podemos descartar que grupos criminosos estejam buscando alternativas ao Mediterrâneo, e o Brasil pode estar no radar deles", afirmou um analista de segurança consultado pela reportagem.

Especialistas em migração destacam que a rota Brasil-Canárias é mais longa e perigosa do que a rota africana, mas pode ser vista como uma alternativa por migrantes que já estão na América do Sul. Além disso, a fiscalização brasileira é menos estruturada para esse tipo de travessia do que a europeia, o que pode atrair contrabandistas. A PF informou que está mapeando possíveis pontos de saída ilegal na costa norte e reforçando o patrulhamento com a Marinha.

Perguntas frequentes sobre o caso

A embarcação transportava migrantes?

A PF não encontrou pessoas a bordo. Não há informações sobre quantas pessoas estariam na embarcação ou se elas conseguiram desembarcar antes da localização.

Como a PF identificou o destino da embarcação?

A perícia analisou as coordenadas registradas no GPS, que apontavam para as Ilhas Canárias. Mapas náuticos e documentos de bordo também indicavam a mesma rota.

A embarcação poderia ser de pesca?

Sim, mas as adaptações encontradas — tanques extras de combustível, grande quantidade de suprimentos e ausência de equipamentos de pesca — indicam que ela foi preparada para uma travessia oceânica, não para a pesca costeira.

O que aconteceu com os ocupantes?

A polícia investiga se os ocupantes abandonaram a embarcação, se foram resgatados por outra nave ou se sofreram algum acidente. Até o momento, não há registros de sobreviventes ou vítimas.

Há suspeita de crime?

A PF investiga o caso como possível tentativa de imigração ilegal e, eventualmente, tráfico de pessoas. Se confirmada a participação de rede criminosa, os responsáveis poderão responder pelos crimes previstos no Estatuto do Estrangeiro.

Existe ligação com outros casos semelhantes?

Em 2022, uma embarcação com características similares foi encontrada no Amapá, mas não foi possível determinar o destino. O atual caso é o primeiro em que a PF consegue confirmar o destino com base em evidências técnicas robustas.

A embarcação será destruída?

A princípio, a embarcação passará por perícia completa. Após a conclusão dos trabalhos, poderá ser removida ou devolvida aos proprietários, se identificados.

Próximos passos

A PF segue com as investigações em conjunto com a Marinha do Brasil e a Polícia Marítima. Também foi solicitada informação à Interpol sobre possíveis ligações com organizações internacionais de contrabando de migrantes. A população local foi orientada a comunicar qualquer movimento suspeito na região costeira. O caso segue sob sigilo judicial.

O episódio deve servir de alerta para as autoridades marítimas e de imigração brasileiras, que agora monitoram com mais atenção a possibilidade de novas tentativas de travessia irregular partindo do litoral norte do país. As investigações continuarão até que todos os detalhes sejam esclarecidos.

Com informações da assessoria de imprensa da Polícia Federal.