Em um movimento estratégico diante do agravamento das tensões comerciais globais, o Brasil intensificou sua agenda no Brics para promover o comércio em moedas locais. A iniciativa, que reduz a dependência do dólar nas transações entre os países do bloco, ganhou novo impulso após a escalada protecionista promovida pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A avaliação no governo é que a volatilidade cambial imposta pelas tarifas americanas torna urgente a construção de alternativas financeiras mais estáveis para o exportador brasileiro.
A ofensiva comercial de Trump
Donald Trump retomou uma política externa marcada pelo protecionismo e pelo uso do dólar como instrumento geopolítico. A imposição de tarifas sobre a importação de aço, alumínio e a ameaça de sobretaxas generalizadas sobre produtos chineses geraram incertezas nos mercados emergentes. Para o Brasil, o cenário representou não apenas a perda de competitividade no mercado americano, mas também um alerta sobre a fragilidade de depender de uma moeda que pode ser usada como ferramenta de pressão diplomática.
Diante desse quadro, o Itamaraty e o Ministério da Fazenda passaram a defender, com mais ênfase nas reuniões técnicas do Brics, a aceleração dos mecanismos que permitem transações em moedas locais. A ideia é que, ao eliminar a intermediação do dólar, os países do bloco fiquem menos expostos a decisões unilaterais de Washington e reduzam os custos operacionais do comércio bilateral.
Como funciona o uso de moeda local no Brics
Na prática, o mecanismo de moeda local permite que um exportador brasileiro venda soja para a China e receba o pagamento em reais ou yuans, sem a necessidade de converter a moeda duas vezes (real-dólar-yuan). O sistema opera por meio de acordos de swap de moedas entre os bancos centrais e de uma câmara de compensação (CCR) que processa as transações a taxas de câmbio pré-acordadas.
O Brics discute o aperfeiçoamento desse sistema desde sua criação oficial, mas os avanços recentes foram impulsionados pela percepção de que o dólar não é mais uma âncora confiável em um mundo de sanções e tarifas. China e Rússia já realizam uma parcela expressiva de seu comércio bilateral em moedas locais (yuan e rublo), e o Brasil busca ampliar esse modelo para suas relações com os demais membros do bloco.
Vantagens estratégicas para o Brasil
A principal vantagem apontada pelo governo brasileiro é a redução da vulnerabilidade externa. O real é uma moeda que sofre com a volatilidade global, e a dependência do dólar amplifica esse problema em momentos de crise. Ao usar moedas locais, o exportador elimina o spread cambial e se protege contra oscilações bruscas que podem comprometer a rentabilidade das operações.
Além disso, a medida fortalece a integração financeira entre os países do Brics e abre espaço para que o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco do bloco, financie projetos em moedas nacionais. Para a economia brasileira, que busca diversificar seus parceiros comerciais e reduzir a dependência de um único mercado, a agenda de desdolarização representa um ganho de autonomia e previsibilidade.
Desafios para a implementação plena
Apesar dos avanços, a implementação do comércio em moedas locais enfrenta obstáculos estruturais. A liquidez do real, do rublo, da rupia e do rand é significativamente menor que a do dólar, do euro ou do iene. Isso exige a construção de um mercado de câmbio robusto e a harmonização de regras cambiais e de combate à lavagem de dinheiro.
Economistas apontam que o dólar continuará sendo a moeda de reserva global e a referência para as principais commodities, como petróleo e minério de ferro, por muitos anos. O objetivo do Brics, portanto, não é eliminar o dólar, mas criar um sistema paralelo que ofereça mais opções e segurança para os países do bloco em um cenário de crescente fragmentação geopolítica.
A nova geopolítica do bloco
Com a expansão do Brics para novos membros, a discussão sobre moedas locais ganhou ainda mais relevância. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã têm interesses diretos em reduzir a dependência do dólar, especialmente no comércio de energia. Para o Brasil, a ampliação do bloco aumenta as oportunidades de negócios em moedas nacionais e fortalece a posição do real como moeda de referência na América do Sul.
O governo Lula tem sido um dos principais defensores da reforma da arquitetura financeira global. Durante as cúpulas do Brics, o Brasil propôs a criação de uma referência comum para o bloco, mas a ideia de uma moeda única foi posta de lado em favor do avanço prático das transações em moedas locais, que exigem menos coordenação macroeconômica e podem ser implementadas de forma mais rápida.
Perguntas frequentes sobre o comércio em moeda local no Brics
O que significa usar moeda local no Brics?
Significa que as transações comerciais entre os países membros podem ser liquidadas utilizando as moedas nacionais de cada país (real, yuan, rublo, rupia, rand), sem a intermediação obrigatória do dólar americano. O mecanismo é voluntário e opera paralelamente ao sistema tradicional.
Quais setores da economia brasileira mais se beneficiam?
O agronegócio é um dos setores mais beneficiados, já que o Brasil exporta grandes volumes de soja, carne e minério para a China e outros países do bloco. A redução do risco cambial torna as operações mais previsíveis e reduz os custos financeiros para o exportador.
Quais são os riscos dessa estratégia?
Os principais riscos estão relacionados à liquidez das moedas e à necessidade de regulamentação robusta. Sem um mercado de câmbio profundo, pode haver dificuldade para converter grandes volumes de moeda local de volta para real. Além disso, a aceitação global do dólar ainda é um trunfo que não pode ser ignorado em momentos de crise.
O Brasil pode sofrer retaliação dos Estados Unidos?
A redução do uso do dólar é vista com preocupação por Washington, mas especialistas avaliam que a transição será gradual e que o Brics não representa uma ameaça imediata à hegemonia da moeda americana. O governo brasileiro, no entanto, está ciente dos riscos e busca equilibrar a agenda de desdolarização com a manutenção de boas relações comerciais com os Estados Unidos.
O reforço do uso de moeda local no Brics é uma resposta direta à ofensiva de Trump e representa uma aposta do Brasil em um sistema financeiro mais autônomo. Resta saber se o bloco conseguirá acelerar as reformas necessárias para tornar essa alternativa uma realidade concreta e segura para o comércio exterior brasileiro nos próximos anos.