Governadores do Nordeste reagem às declarações de Zema sobre a região: “Aprofunda a divisão”

Os governadores dos nove estados do Nordeste emitiram uma nota pública neste domingo (6) em resposta às declarações do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que afirmou que a região recebe tratamento privilegiado por parte da União. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Zema defendeu o “protagonismo político” do Sul e do Sudeste e fez uma comparação desfavorável entre as duas regiões economicamente mais pobres do país (Norte e Nordeste), referindo-se a elas como “vaquinhas que produzem pouco” e que são tratadas melhor que as demais.

O Consórcio Nordeste, que representa os nove governadores da região, expressou preocupação com a visão apresentada por Zema sobre o Brasil. Segundo o comunicado do consórcio, ao indicar uma disputa entre regiões, o governador mineiro não apenas demonstra falta de compreensão das desigualdades em um país de proporções continentais, mas também sugere a intenção de mantê-las, perpetuando assim a mesma forma de governança que contribuiu para essas disparidades. O Consórcio é presidido pelo governador da Paraíba, João Azevêdo (PSB).

Durante a entrevista, Zema defendeu a atuação do Consórcio Sul-Sudeste (Cossud), presidido atualmente pelo governador Ratinho Júnior (PSD-PR), como uma ferramenta para enfrentar o que ele chama de protagonismo político desproporcional dos estados do Norte e do Nordeste, afirmando que estes recebem mais recursos da União do que contribuem. No entanto, o governador mineiro ignorou completamente a necessidade de implementar políticas de reparação para combater as desigualdades regionais.

Na avaliação do Consórcio Nordeste, as declarações de Zema estão em desacordo com as necessidades urgentes do país. Enquanto os estados do Norte e do Nordeste trabalham para fortalecer o projeto de um Brasil democrático, inclusivo e, portanto, unido e em reconstrução, a entrevista mencionada parece aprofundar a lógica de um país subordinado, dividido e desigual.

As declarações de Zema repercutiram negativamente nas redes sociais no sábado. Sendo cotado como um possível candidato à presidência pela direita, o governador mineiro foi acusado de promover xenofobia.

Veja a nota dos governadores do Nordeste:

“NOTA OFICIAL

O governador de Minas Gerais, em entrevista publicada no jornal O Estado de São Paulo em 05 de agosto, demonstra uma leitura preocupante do Brasil. Ao defender o protagonismo do Sul e Sudeste, indica um movimento de tensionamento com o Norte e o Nordeste, sabidamente regiões que vêm sendo penalizadas ao longo das últimas décadas dos projetos nacionais de desenvolvimento.

O Consórcio Nordeste, assim como o da Amazônia Legal, valendo-se da profunda identidade regional, cultural e histórica, foram criados com o objetivo de fortalecer essas regiões, unindo os estados em torno da cooperação e compartilhamento de melhores práticas e soluções de problemas comuns, buscando contribuir com o desenvolvimento sustentável e a mitigação de nossas desigualdades regionais.

Negando qualquer tipo de lampejo separatista, o Consórcio Nordeste imediatamente anuncia em seu slogan que é uma expressão de “O Brasil que cresce unido”. Enquanto Norte e Nordeste apostam no fortalecimento do projeto de um Brasil democrático, inclusivo e, portanto, de união e reconstrução, a referida entrevista parece aprofundar a lógica de um país subalterno, dividido e desigual.

Já passou da hora do Brasil enxergar o Nordeste como uma região capaz de ser parte ativa do alavancamento do crescimento econômico do país e, assim, contribuir ativamente com a redução das desigualdades regionais, econômicas e sociais.

É importante reafirmar que a união regional dos estados Nordeste e, também, os do Norte, não representa uma guerra contra os demais estados da federação, mas uma maneira de compensar, pela organização regional, as desigualdades históricas de oportunidades de desenvolvimento.

Nesse contexto, indicar uma guerra entre regiões significa não apenas não compreender as desigualdades de um país de proporções continentais, mas, ao mesmo tempo, sugere querer mantê-las, mantendo, com isso, a mesma forma de governança que caracterizou essas desigualdades.

A união dos estados do Sul e Sudeste num Consórcio interfederativo pode representar um avanço na consolidação de um novo arranjo federativo no país. Esse avanço, porém, só vai se dar na medida em que todos apostarmos num Brasil que combate suas desigualdades, respeita as diversidades, aposta na
sustentabilidade e acredita no seu povo.

Assim, nós, governadoras e governadores da região Nordeste, além de defendermos um Brasil cada vez mais forte e próspero, apelamos pela união nacional em torno da reconstituição de áreas estratégicas para o nosso país, a exemplo da economia, segurança pública, educação, saúde e infraestrutura.

Nordeste do Brasil, 06 de agosto de 2023.

João Azevêdo
Presidente do Consórcio Nordeste
Governador do Estado da Paraíba”

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